Em 48 horas (das 5.20 de dia 30 às 5.30 de dia 1), tinha apenas cinco de sono, com dois dias de trabalho e uma viagem longa pelo meio. Mas não se pense que isso afectou a minha disposição enquanto estive acordado. Estive sempre tranquilo e bem-disposto naquela casa, que albergava um grupo de 14 pessoas, na maioria desconhecidas umas das outras.
Os ponteiros do relógio marcavam as 5.30 quando senti necessidade de dormir. Dirigi-me, então, ao quarto que me fora destinado, e onde já descansavam outras pessoas. Estava prontinho a 'aterrar'...
Porém, alguns tipos - uns com a atenuante da bebida, outros não - estavam sempre a entrar e sair do quarto. A porta do quarto abria-se constantemente, acendia-se a luz e vinha o barulho e as gargalhadas. Acham normal um dos outros tipos que ficou no meu quarto estar a dormir e entrarem lá uns amigos dele para lhe fazerem moches? Por amor da Santa! Até poderia ser normal se estivesse a falar de miúdos de 15 ou 16 anos e não de indivíduos de 20 e tal e 30 anos...
Havia uma casa inteira para quem quisesse continuar a festejar a passagem de ano com música ou o 'diabo a quatro' sem restrições, isso é compreensível. Mas é compreensível também que nem mesmo o quadro festivo daria o direito de ir perturbar quem descansava nos quartos. Porém, isso aconteceu sistematicamente. Acordaram-me umas quatro ou cinco vezes no espaço de uma hora e pouco. Tentei dizer a bem que queria e precisava de dormir. Mas nem sempre é possível a bem...
Estava a ficar farto de comportamentos infantis e isso fez com que começasse a ferver por dentro. Quando, novamente, a porta se abriu e a luz se acendeu, fiquei completamente fora de mim e já nem vi quem estava ali. Soltei de imediato umas palavras com pouco açúcar e a bom som para o rapaz que estava à porta. Ele deve ter ficado tão intimidado com a minha agressividade momentânea que se limitou a dizer-me timidamente que só ia "ao quarto buscar a mala". E ainda bem que não me respondeu mal, porque eu já estava cego e isso seria mais lenha para a fogueira!

Fiquei com um sentimento de culpa nos instantes seguintes. Acima de tudo, porque pagou o justo pelos pecadores, pois, na verdade, não me lembro de ver aquele rapaz entrar nas parvoíces dos outros lá dentro do quarto. Pedi-lhe desculpa ainda antes de ele sair e, felizmente, compreendeu e não levou a mal. No dia seguinte até brincou com isso... Foi um alívio para mim.
A única coisa que se aproveitou nesta situação foi que, entretanto, os outros, ao aperceberem-se do estrilho, foram ver o que se passava. Ao verem o diabo em figura de gente, assustaram-se e não voltaram a incomodar quem dormia.
Curioso é que um dos fulanos que dormiram no meu quarto nem se apercebeu de nada de nada. Que sono mega-pesado... Incrível mesmo, tipo pedra! Dava-me jeito ter um sono assim...
Resta-me acrescentar que por norma, sou bastante tranquilo, mas há situações e contextos que, como a qualquer ser humano, me podem tirar do sério. Foi o que sucedeu neste caso, quando se deu o pior - foi mesmo o pior, sem exageros - ataque de fúria da minha vida. O cansaço e as tolices colocaram os meus níveis de irritação no auge e, durante um ou dois minutos, fui possuído pelo demo! Assumo... mas tive a minha razão.
Afinal, não foram só as rolhas das garrafas de champagne... a mim também me saltou a tampa no primeiro dia do ano!!!
Abraço/beijinhos